09 agosto 2010

No fundo dos teus olhos, verde


5 de agosto pela manhã me telefona o Francisco, da Pedra Branca: as montanhas estão brancas de neve! Faz muito frio na Serra, o que atrai os turistas. Com a neve vem o fogo, pois a macega está seca e é hora de “limpar” o pasto. Prática tão enraizada na cultura que ninguém se dá conta do estrago. E, pior: botam fogo à noite, quando os bombeiros não podem fazer nada e a fauna descansa inocente. O menino-perereca está frito. Assim vai sendo exterminada nossa fauna, sem mesmo ter sido conhecida.

Ivan Sazima, por email, nos respondeu sobre esta foto: “levei um baile do seu lindo menino de olhos verdes (parece ser um macho, a julgar pelas pregas abaixo do queixo, que indicam presença de saco vocal). Provavelmente é uma espécie não descrita (“nova”). É uma das mais lindas e vale a pena ir atrás para descrever. Pode ser uma espécie do gênero Sphaenorhynchus (Hylidae). As espécies desse gênero vivem na vegetação e criam em poças e brejos, tanto em ambientes florestais como os abertos. São todas noturnas e os machos vocalizam (cantam) dentro d’água, para atrair as fêmeas e para avisar outros machos que aquele pedaço tem dono. A desova e as larvas (girinos) se desenvolvem na água. Após a metamorfose, seu alimento são insetos e outros invertebrados, como aranhas. Sua principal defesa é a camuflagem na vegetação.”


Tobias Kunz, conhecedor da fauna da Reserva, também acredita que seja um jovem Sphaenorhynchus.


Sábado, 31, à noite, quando observávamos um grande incêndio no Alto da Boa Vista, pensávamos nas chispas da humanidade. A súbita virada no vento e uma tempestade frearam o que poderia ter sido uma catástrofe.
O resultado está lá, todos podem ver: uma paisagem de luto, ou mera passagem: um branco.


21 junho 2010

232 espécies de aves na Reserva Rio das Furnas


Em quase dez anos de preservação e observação, a Reserva Rio das Furnas transformou-se no paraíso das aves. Ou seria um refúgio na Serra da Boa Vista; uma ilha num oceano de pinus e pastos?

A cada visita de pesquisadores e apaixonados pela Natureza, aparece um bicho diferente. Assim, pouco a pouco, a Reserva chegou a 232 espécies de aves, um número fantástico, se comparado ao do Estado de Santa Catarina, aproximadamente 680. Isso é entusiasmante!

Amigos observadores e a experiência dos ornitólogos que estiveram na Reserva: Lenir Rosário, Beloni Pauli, Vitor Piacentini, Luiz Pedreira Gonzaga, Ivo Ghizoni, foi fundamental para chegarmos a 177 espécies. A parceria com o Instituto de Pesquisas Ambientais da Furb, consolidou essa etapa do levantamento.


No final do ano passado a Reserva recebeu a Sociedade Chauá, contratada pela parceira SPVS, com o apoio da Souza Cruz, para o levantamento preliminar do Plano de Manejo. O ornitólogo Raphael Fernandes apontou muitas novidades, e, de quebra, ajudou a fotografar a Murucututu deste News.


Canto de chapa


Quem ouve o canto desta belíssima coruja nunca esquece, pois é muito parecido com a vibração de uma chapa de metal. Certa vez, numa caminhada noturna, tivemos o prazer de avistar a Murucututu na trilha para a Ilha do Rio das Furnas. Ficou um tempo a observar nossa equipe, tanto quanto a observamos.


Gavião-caboclo (Heterospizias meridionalis), Bacurau-tesoura (Hydropsalis torquata), Caminheiro-zumbidor (Anthus lutescens), Principe (Pyrocephalus rubinus) e Saí-andorinha (Tersina viridis) foram algumas das novas aves registradas pela SPVS.
Para uma lista completa de aves da Reserva Rio das Furnas clique aqui

15 abril 2010

Emails enviados sobre a lenda da plantadora de pinhões

Como obtivemos muitas respostas, acredito que uma maneira legal de socializar seja a publicação. Para não entupir caixas de emails, resolvi publicar neste blog e divulgar o endereço, assim todos poderão interagir nas respostas e ver o que foi dito sobre a lenda.
Muito obrigado pela participação! Lá vai:

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Estou tomando meu café da manha na serra catarinense, quando abro este obra de arte de meu amigo Renato.
Uma lenda tem que ser acompanhada de sinais mágicos. : )
Rodrigo Sabatini

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Parabens por mais esta foto belissima, vc tem o dom, meu irmão, e o seu texto tbem...
Bom sou daqueles que acreditam e propagam as lendas e misterios desde nosso mundo, sem eles nao teriamos encantamentos.

Prof. Daniel Silva
Universidade Federal de Santa Catarina
Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental

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Do pouco que sei a respeito das araucárias, de fato é apenas uma lenda a história de que são as gralhas as principais responsáveis pela dispersão das sementes. Afinal, os principais dispersores que mantêm a floresta de araucárias são mesmo os roedores. Também nunca vi uma gralha enterrando pinhões.
Dulciani Allein Schllikmann

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Bela gralha azul com pinhão no bico... Semana passada apareceu aqui atrás, no poço, um casal delas. E tb uma rola das grandes... Nada comum. Na Armação andam em bandos, disputando o espaço com as aracuãs, todas cada vez mais próximas de nós.
Gilberto Gerlach

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Que foto Renatão. Parabéns!
Markito/Agência Fotomundo

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Nunca vi nehuma gralha enterrando pinhão ja vi elas voando com pinhão e deixar cair este pinhão pois quendo o pinhão cai ele sempre cai de ponta pra baixo e acho que quando cai em uma terra macia ele pode se enterrar e nascer.
Emercier/DBSA-AW

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SIMPLESMENTE MARAVILHOSA!!!
Max Edson Figueiredo

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Fantástico, acho que essa tua foto da Gralha-Azul carregando um pinhão no bico tem tudo, mas tudo mesmo prá ser premiada em algum concurso fotográfico c/ tema ambiental/ecológico, em especial este que é organizado todos os anos pelo AVISTAR.
Carlos Manoel Amaral Soares/SPVS

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Eu particularmente, costumo ver muito mais gralhas azuis no nosso litoral, nas florestas de terras baixas, do que aqui por cima, no planalto. Então acho que a lenda é realmente lenda mesmo, mas que são tremendas dispersoras de diversas espécies de sementes, não há a menor dúvida!
Parabéns pela foto da gralha, achei muito legal!
Christopher Thomas Blum/Sociedade Chauá/PR

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Lembro que a gralha foi um dos ícones de um ano do Clube da Árvore quando falamos dos animais e a floresta. Ou seja como animais ajudam a fazer as florestas crescerem e se multiplicarem. Se era lenda, não sei dizer, mas creio que há um papel relevante desta ave para a floresta, seja enterrando pinhões ou simplesmente deixando-os cair. E viva a gralha azul!
Flavio Goulart
Gerente de Assuntos Corporativos Souza Cruz

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Complementando seu News, posso te dizer que o aparecimento de gralhas aqui no litoral é um fenômeno razoavelmente recente. Diria que no máximo 10 ou 15 anos atrás. Antes disso, só ouviamos falar da mesma e olha que desde 1977 ando pelos matos de Angelina, São José, Santo Amaro e Águas Mornas.
Agora, discordo um pouco de você quando diz que as mesmas estão em perigo de extinção. Pelo que vejo aqui em São José, onde moro e Florianópolis, onde trabalho, cada vez tem mais bandos. Me parece que a degradação do ambiente serrano onde viviam as fez migrar para cá e talvez por falta de predadores e competidores na cadeia alimentar, conseguiram um espaço grande para expandir sua população.
Processo semelhante de migração você poderia observar nas áreas rurais de Palhoça e Paulo Lopes, próximas ao Rio da Madre, onde, depois da implantação de plantações de arroz, surgiram alguns tipos de pássaros até então nunca vistos naquelas regiões.
Jorge Destri/UFSC

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Até aos 16 anos, morei no norte do Paraná e quando tinha uns 8 anos, mais ou menos, achei um bebê gralha sem uma parte da asa e, como sempre fazia quando achava um bichinho machucado, levei para casa. Minha mãe cuidou e por vários anos, ela conviveu conosco, com a gaiola aberta, mas sem poder voar.
Como considero os animais mais racionais que os seres humanos em determinadas situações, acredito que a "lenda" seja na verdade uma forma bacana de retratar a esperteza delas para armazenar alimento. Tantos animais fazem isso...
Nunca vi a minha gralha fazer algo parecido, mesmo sendo livre, ela era gulosa demais para se preocupar com poupança. Mas era muito esperta e atenta e também aprendia facilmente a imitar outros sons ou eles eram inatos, sei lá...Só sei que quando resolvia bagunçar...
Léla Galvão

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Pois é, eu também, até hoje, nunca vi alguma destas lindas avez azuis enterrando algo, só nas copas das árvores e fazendo aquela arruaça. Será que não andaram fazendo uma parceria com os roedores??? o trato seria, "nós pegamos lá no alto, soltamos para vocês no chão, algumas vocês comem e outras enterrem" que tal? Pode ser assim...
Adriane Kassis/Núcleo de Yoga Pádmáshram - Rio do Sul

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O que sabemos aqui no oeste e o que víamos na fazenda da minha avó, era a gralha carregando o pinhão no bico p/ alimentar a si e seus filhotes. Mas ,as vezes derrubavam e como seu ninho é nos pinheiros e em meio dos pinheirais ,qdo. ela perde o pinhão ele cai no mato, em áreas sombreadas, que é aonde o pinhão brota. Na sombra. É o que eu ouvia contar e o que víamos.
Yeda Maura

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LENDA LINDA!
André August Remi de Meijer/SPVS

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Seguem dois artigos sobre o assunto.
Analise historica da lenda da gralha-azul.pdf
Escudo Parana Clube.pdf

(Obs: Interessados nos artigos deverão solicitar por email para mim, pois não sei como vincular os arquivos .pdf a este blog)

Espero que sejam úteis. Tenho um livro que enviarei para publicar em breve, tratando especificamente da harpia (ave que orna o brasão de armas do Paraná) e a gralha-azul (ave-símbolo).
O tema é muito legal. Agradeço pelo envio do artigo e do belissimo material didático. Vamos disseminar a lenda; vamos também ensinar as pessoas que, na via real é um pouco diferente. As duas coisas não são excludentes. Temos nossos mitos e nossa ciência. Devem andar juntos!
Fernando C. Straub/Biólogo e Ornitólogo/Curitiba-PR

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O homem que atirou nas Gralhas
folclorista Luiz da Câmara Cascudo a eternizou em sua majestosa lenda.
És um assassino! Tuas leis não te proíbem de matar um homem? E qum faz mais do que um homem não vale pelo menos tanto quanto ele? Pois sou eu a humilde avezinha, entoando a minha tagarelice que faço elevar-se toda esse floresta de pinheiros; bordo a beira das matas com o verdor dessas viçosas árvores de ereção perfeita; multiplico o madeiro providencial que te serve de teto, que te dá o verde das invernadas, que te engorda o porco, que te aquece o corpo, que te locomove dando o nó de pinho para substituir o carvão-de-pedra nas vias férreas. E ignoras como opero! Venha até o local onde interrompeste meu trabalho. Ali está a cova que eu fazia, para depositar nela o pinhão sem cabeça com a extremidade mais fina para cima. Tiro-lhe a cabeça porque ela apodrece ao contato da terra e arrasta à podridão o fruto todo e planto-o de bico para cima a fim de favorecer o broto. Vá e não sejas mais assassino. Esforça-te, antes, por compartilhar comigo nesta suava labuta."
Levantei-me então a muito custo e fui até o local escavado pelas aves, uma das quais jazia com o peito manchado de sangue, ao lado de um pinhão sem cabeça. Pude compreender que certeza da visão. Mais adiante, com as mão remexi na terra revolvida e descobri um pinhão com a ponta para cima e sem cabeça.
José Fernandes, após uma pausa, concluiu:
- "Aí, está, caro Fidêncio, como vim a ser um plantador de pinheiros. Quero valer mais que um homem: quero valer uma gralha azul".

Aqui na EESJ temos o "privilégio" de vê-las comendo quirera (geralmente qdo acaba o pinhão) em um tratadouro, onde faz valer seu tamanho e afasta canários, chupins, e faz sua refeição, sempre acompanhada(o) de seu parceiro(a) Vamos preservar sempre!

Humberto Cassão/EESJ

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Magnífico!
Seu acervo de fotos está cada vez melhor. Precisamos atualizar a "caixinha".
Celso Vicenzi/Ilha de Santa Catarina

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Linda foto mesmo, "fanstática".....
Sobre as gralhas, te confesso que passei a vê-las como aves especialmente da Floresta Atlântica, pois durante meus tempos de Morato (Reserva do Boticário, no Paraná) via elas diariamente, enquanto aqui no Planalto são vistas com frequencia bem menor.
No Morato foram incontáveis as visualizações e infinitas as constatações sonoras da sua presença. O fato mais marcane da presença delas lá no Morato foi um amanhecer, no qual havíamos deixados aqueles postinhos de luiz acesos durante a noite, e avistamos cerca de 60 gralhas ao redor dos postes e comendo os mariposas e outros insetos ali presentes.
Paulo Chaves Camargo/Biólogo/PR

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Aqui na Ilha dos Patos, território dos Carijós e Caiçaras a Gralha-azul ocorre em toda a sua extensão, desde o Ribeirão da Ilha (Caiacanga-Açu, Araça-Tuba) até as imediações dos Ratones (Papaquara, Jurere).
Embora não frutifique a araucária aqui também se desenvolve.
Não é novidade entre o caboclo que a gralha enterra o pinhão esperando dias mais difíceis na alimentação. Porém nem sempre encontra sua guarda que na terra frutifica ou é digerida por outros animais entre eles o caititu ou cateto.
Fabio do Lago

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A natureza é o "Grande Mistério, a "religião de antes da religião"... (Angeles Arrien)
Aqui de casa ainda temos o privilégio de avistá-las pela janela. Quando vamos até o Canto dos Araçás são bandos a nossa volta e num codomínio de amigos na Barra da Lagoa em todo seu entorno.
Verde que te quero verde alimente nossas gralhas azuis... Araucária aliada protetora seduz!
Alexandra

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Não sabia que isso era apenas uma lenda. Sempre soube que isso era verdade. Há muitos anos até fiquei sabendo de um projeto chamado Gralha Azul, e que as ajudava plantando araucárias. Será que é sonho meu?
Beate Frank

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Oi Renato,

veja este vídeo a partir dos 4 minutos e 10 segundos, abraços do Fábio Feminella
http://www.youtube.com/watch?v=0Hy2ogiQfyw

14 abril 2010

Lá vai a lenda, plantar mais um pinhão?


Pois agora que os pinhões estão maduros e trilhas de roedores cruzam nosso caminho, lembrei da lenda. Como o Blog pode ser visto por ornitólogos, pesquisadores e curiosos, espero saber quem acredita ou não e porque.
Apesar de estar na lista de aves ameaçadas por tabela, por causa da extinção da Floresta de Araucária, já vimos gralha-azul na Ilha de Santa Catarina fuçando em lixo! Mas isso é coisa de urbe, aqui na Reserva nunca vimos a dita no chão. Fica difícil acreditar que enterre pinhões, como prega o povo. Agora, como dispersora, por transportar pinhão no bico de uma árvore à outra, é vero. Outra coisa: tem o hábito de armazenar sementes em epífitas e buracos nos troncos, o que já vimos resultar em curiosos bonsais.
Mas não e só de pinhão que vive nossa bela ave. Papa insetos, invertebrados, frutos, ovos e filhotes alheios, desde São Paulo ao Rio Grande do Sul, leste do Paraguai e nordeste da Argentina e no Paraná virou símbolo, por lei, desde 1984.
Forma bandos de 4 a 15 indivíduos com hierarquia e clãs, misturando adultos e filhotes de até duas gerações.
Realiza as suas atividades em grupo, como a busca de comida, limpeza da plumagem e reprodução. Bacana, hein?!
Todos auxiliam na alimentação dos filhotes, defesa do território e construção do ninho. Esse, muito bem escondido, fica no alto de árvores de grande porte, e na Floresta de Araucária, no topo de pinheiros jovens.
Depois dos papagaios, araras e periquitos, as gralhas são as mais inteligentes, refletindo assim em seu complexo e sofisticado comportamento. Seu repertório vocal, por exemplo, possui mais de quatorze sons diferentes.
Agora que você conhece um pouco mais esse corvídeo, se já viu algum enterrando pinhão, mande seu comentário e ajude a perpetuar a lenda.

Envie sua opinião pra mim, no email: riodasfurnas@gmail.com

26 novembro 2009

Ouriço da Reserva ganha capa de livro no Paraná


O nosso ouriço-cacheiro ganhou a capa do Guia dos Mamíferos do Paraná, e o caxinguelê e uma bela capivara que fotografei nas margens do Rio Itajaí, em Blumenau, também entraram para o Guia.

Bruna Karla Rossaneis, uma das autoras do Guia, nos contactou no começo do ano, solicitando algumas fotos para ilustrar a sua tese que, junto com outros autores, acabou se transformando em Guia de Campo, editado pela Useb, famosa por publicar bons guias da fauna brasileira.

Diz o guia, sobre nosso famoso mamífero: Há uma ideia errônea de que os espinhos do ouriço-cacheiro são lançados contra o inimigo. Tais espinhos se fixam no agressor que tenta capturá-lo. Frequentemente, estes animais emitem um cheiro forte que permite localizá-los. Podem invadir áreas de cultivo atrás de alimento.

Mede de 31 a 41,5cm e pesa em torno de 1,2kg, sendo que a cauda mede de 23 a 41,5cm e é musculosa e preênsil. As patas têm quatro dedos com unhas fortes e curvas. As fêmeas possuem de dois a três pares de mamas abdominais.

Pouco se sabe sobre a reprodução, geralmente há uma cria por gestação, com recém-nascidos semelhantes aos adultos, porém com pelos macios. Nos filhotes, os espinhos aparecem por volta do sétimo dia. O macho constrói o ninho.

Herbívoros, alimentam-se de frutas, folhas e cascas. Solitários e noturnos, vivem nas árvores altas.
Ocorrem na Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica e são encontrados em alguns estados do Norte ao Rio Grande do Sul, incluindo Minas Gerais.

Segue ameaçado, como todos nós, pela redução de seu habitat.
Dá para perceber a carinha de felicidade de nosso ilustre cacheiro na foto da capa do Guia?! Certamente, está pensando que o cachê está bom demais: será protegido, aqui na Reserva Rio das Furnas, por toda a sua vida!

10 julho 2009

Quem bota a mão na nossa água?


Caminhamos os quase três quilometros da Reserva até a Escola de São Leonardo falando sobre a escassez de água, lado a lado com o Rio das Furnas, bem baixo.
Nossa água vem da mesma fonte: a Serra da Boa Vista, depois vai parar no Itajai, o rio que abastece a população da maior bacia de Santa Catarina. Uma fonte invisível, que nasce na superfície dos Campos Naturais, invadidos cada vez mais por plantações de pinus em áreas que deveriam ser de proteção permanente. Também, plantam as invasoras na beira dos arroios e da escarpa. Falta informação, cultura, o quê?
A comunidade está preocupada, pois a nascente da Vila brota no meio de uma dessas plantações.













A Estação da Vila

Em 2007 a comunidade se reuniu e, com o apoio da Secretaria de Agricultura e do Projeto Microbacias 2, construiu uma estação de tratamento e instalou um reservatório de vinte mil litros para abastecer 31 famílias, que funciona até hoje. Antes, cada um tinha o seu olho d’água, até que aconteceu a seca de 2006 e quase todos secaram.













O
que vai pela água?
Já foram feitas duas análises na estação; a primeira detectou coliformes fecais acima do nível permitido, pois parece que a filtragem através de raízes de junco ainda não havia atuado. Numa segunda medição o problema havia diminuido a níveis aceitáveis. Porém, o caminho até a estação passa por roças de cebola onde diversos agentes químicos invariavelmente vão se misturar com a água e nenhuma análise desses agentes foi feita até o momento.













Educação fora da escola
Nossa saída de campo, na sexta-feira (26) foi para que os alunos conhecessem de onde vem e como é tratada a água que todos usam. Cadernetas prontas para desenhar e escrever e lá fomos morro acima, na “viagem da filtragem”.
Desenhamos o junco e a sua flor, pedrinhas, água transparente, o tanque, a caixa e, finalmente, a poluição. Eles sabem!

E agora?

O próximo passo será solicitar uma análise química e uma visita aos Campos Naturais. Vamos convidar ainda mais pais e amigos dos alunos, para ver por onde transita e o que precisamos fazer para garantir a qualidade da nossa água.

15 junho 2009

Passarinhos escalam alunos de Alfredo Wagner

Um pássaro na mão pode mostrar o quanto é importante... que ele esteja solto. Mas como? É justamente o contrário do que diz o dito popular: "mais vale um pássaro na mão, etc" só que resolvemos virar tudo de pernas para o ar e mostrar para os alunos da Escola de São Leonardo e do Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) de Alfredo Wagner que passarinho "na mão" é sinônimo de passarinho livre, vivo, voando e feliz.

Passarinho para todo lado
Resolvemos preparar os Cadernos de Campo, que há anos distribuímos aos alunos de São Leonardo, não somente com a foto de um passarinho na capa, como até então fazíamos, mas o aluno também entraria na foto. Começamos com uma brincadeira: ao bater a foto de cada aluno, fazíamos uma pergunta: "se viesse um passarinho voando agora, aqui, neste momento, como você mostraria ele para a câmera?" A criançada levantava o dedo, o ombro, imaginava o passarinho na cabeça, subindo no cabelo, no pescoço, braço... Ah, foi uma folia geral!

A mágica desvendada
Quando estávamos montando as fotos no
Photoshop (programa de computador) foi outra folia! Pois escolhíamos, entre mais de uma centena de passarinhos, aquele que se encaixaria com a expressão da criança, com roupa, cores, movimento, posição... Finalizada esta etapa, levamos tudo para o laboratório, no Kobrasol, que fez as cópias em papel fotográfico, com apoio da Secretaria de Educação de Alfredo Wagner. Tivemos apoio da Gráfica Floriprint, da qual Ricardo Rizzaro é representante, e ganhamos os bloquinhos, confeccionados com sobras de papel.

A festa do Caderno de Campo
O "festerê" maior aconteceu na hora da entrega. Passaram-se umas duas ou três semanas desde que fizemos as fotos e marcamos uma tarde, primeiro na Escola de São Leonardo. No Peti, já foi necessário mais tempo, pois são duas turmas e muito mais crianças. No período da manhã, o frio fez com que alguns alunos não viessem ao Parque e fizemos a entrega no salão interno, pois o vento frio reclamava por aconchêgo. Juntamos os sofás em círculo e passamos um a um os caderninhos, para que todos vissem as montagens. Muita risada, brincadeira, gozação e partimos para o desenho na primeira folha em branco.
Num outro dia, com a turma da tarde, com mais crianças e calor, fomos para fora e fizemos um grande círculo e recebemos a visita de um curioso pica-pau, que resolveu pesquisar numa árvore ao lado, o que deu um tom mágico à entrega dos caderninhos. As crianças aprovaram as montagens, e as professoras, tanto "reclamaram" que também receberam seus Cadernos de Campo com foto-montagem e tudo, provando, assim, que criança não tem idade. Todos levaram o trabalho para casa, para mostrar aos familiares e trazerem de volta, aguardando pela próxima visita, quando iremos observar e desenhar flora e fauna no entorno da escola.

Vamos quebrar a lingua?
Na montagem da foto incluímos o nome da criança, a família de cada ave, assim como nome científico, popular e inglês. O tamanho original do passarinho também estava registrado na fotografia, pois não foi possível manter a escala de cada um. Assim, a criança pôde perceber, quando anunciávamos as medidas originais, a diferença que existia entre um e outro e entre ele e a "sua" ave.
Falar os nomes em outro idioma foi muito engraçado. Alguns não conseguiram pronunciar da primeira vez, mas depois ficou fácil, pois a cada tentativa, uma explicação e tudo ficava claro, até o significado dos nomes em latim e inglês.


Matéria publicada no www.capitaldasnascentes.org.br

08 junho 2009

Serrador invisível


Vemos TV muito pouco. Quando vamos ao Centro de Alfredo Wagner, pois aqui na Reserva somos eximidos de assistir a este aparelho que despeja mortes e atropelamentos em pleno almoço, parece que só para distrair os estômagos mais sensíveis ao paladar, muitas vezes pasteurizado, das comidas a quilo.

Assim, numa dessas vistas, assistimos a um programa sobre um rapaz, ilhéu, que tinha alguns galhos na mão, “misteriosamente” serrados por “almas de outro mundo”. Claro que a reportagem nem se deu ao trabalho de informar e deixou no ar uma pasmaceira, característica dos programas “sensacionais” que são apresentados na telinha.

Confesso! Na primeira vez que vi um galho serrado assim, certinho, caído no chão, fiquei espantado, quem teria feito aquilo? Um belo dia, nosso amigo Alexandre, professor de Zoologia da Ufsc veio com a luz: é um Bicho-serrador (Oncideres sp), que coloca os ovos em cavidades feitas por ele próprio nos galhos e serra em seguida para que as suas larvas possam crescer e se alimentar daquele galho.

Marcelo, Professor e Engenheiro Florestal e nosso parceiro do Instituto de Pesquisas Ambientais da Furb, complementou: é um Cerambycidae, que ocorre em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além do Paraguai e Argentina. Os ovos são elipsóides brancos com 5mm de diâmetro, dos quais saem larvas vermiformes branco-leitosas que chegam a 30mm de comprimento; cabeça achatada e fortes mandíbulas, que “duram” cerca de um ano! Depois, viram pupas e, então, adultos, normalmente entre novembro e fevereiro.

É raro de se ver, pois serra, normalmente, à noite ou de madrugada. O nosso fotografado, ao lado, estava atrasado ou se perdeu na hora, porque já era bem tarde quando observei-o trabalhando sem parar num belo exemplar de Cedro (Cedrela fissilis) com mais de um metro de altura. Como, aqui na Reserva, plantamos e deixamos nascer muitos cedros, um ou outro ganha uma poda “radical” do nosso amigo Serrador, porém rebrota e há casos de serem serrados mais de um ano seguido e sempre rebrota!

01 maio 2009

A Horta Mágica

Estou bem longe de ser agricultor, por ter nascido na paulicéia desvairada no final dos anos 50, mas já plantei algumas coisas pela vida afora. Minha saudosa mãezinha teve a oportunidade de ter um quintal em casa, em pleno Ipiranga. Lembro que de lá saía muita verdura, tempero e depois, muita fruta que ela reservava para os passarinhos.
Com a Gabi já é diferente, ela tem um pé na roça. Nasceu em Rio do Sul, no meio dos italianos da Itoupava e a mãe dela era agricultora de marca maior! Só para dar um exemplo, sua mãe foi a primeira e única mulher que conheci a pegar o touro a unha. Sério! Quando criança conduzia um touro com nome de Gigante (dá pra imaginar?!) enquanto o pai guiava o arado. O tal touro só obedecia ao pai e a ela. Vai daí, meu grande respeito pela Dona Nirce, hoje respeitada instrumentadora cirúrgica que nos fins de semana roça o mato, e quando vem aqui na Reserva dá um banho na gente quando o negócio é plantar mudas, remexer em canteiro, cuidar de flores e frutas. É uma autêntica dedo-verde! Precisa ver!
Bom, mas a gente também tem história de plantador para contar. Ganhamos algumas sementes belíssimas, de milho preto peruano, abóbora crioula, girassol, feijões do amazonas, pimentos doces, cabaças e tudo vingou que foi uma maravilha, ao lado de casa.
Aprendemos muito lá em Santa Rosa de Lima, com o pessoal da permacultura. Depois foi curtir o sabor de cada semente que colhemos. Uma delícia de sabor, de vitalidade, tudo de bom.

Aí em cima, uma cabacinha nativa que ganhamos de nosso vizinho, o Moli

Nossa plantação de cabaça vingou rapidinho e distribuímos aos visitantes da Reserva durante anos seguidos.

26 abril 2009

2001, uma odisséia

A foto acima é de 2001, num vôo que fiz de helicóptero. Toda pastagem, hoje, é uma capoeira bem bonita, pois de lá para cá, só enriquecemos a Reserva com espécies nativas. Muita coroação de araucárias, cedros, camboatás, coqueiros-jerivá... A doação de duas mil mudas do Projeto Piava deram uma adiantada bacana na recuperação da mata nativa.

A primeira geada, em 2001, não foi mole. A horta, mesmo coberta, não resistiu ao frio e foi-se. Algumas ervas aromáticas se adaptaram ao frio da Serra e resistem até hoje, mas a maioria foi eliminada de saída. O urucum, por exemplo, sem chance...

Acima, 2001. À esquerda é possível ver um pequeno rancho que servia de depósito de onde sairam algumas tábuas utilizadas na reforma do assoalho da atual cozinha. No primeiro plano (em alvenaria, derrubada em seguida), o início da contrução que substituiria a casinha, caso o Areni continuasse a morar na terra. Na época, a casinha servia como um grande depósito de tralhas e estava totalmente abandonada (há doze anos, isso em 2001!). Ao fundo, o Rancho de cebolas, atualmente reformado.

Hoje. Depois de um ano inteiro de prega e remenda tábuas, eu e a Gabi somente pensávamos em ter uma casinha onde morar para sempre. A realidade é doce como um sonho! Porém, precisamos ouvir de três carpinteiros, convidados a fazer orçamento para a reforma da casinha, que o melhor e mais barato seria derrubar e começar tudo de novo. Teimosos e persistentes, preferimos trabalhar por conta própria. O resultado foi muita economia e muitas histórias, desde vizinhos impressionados com a nossa imensa teimosia e vontade, à cobras, ratos e aranhas que tiveram que mudar de casa (de vez em quando ainda recebemos uma visitinha...)