04 setembro 2011

De Constelação a Filtro de Amor


Enyalius em grego significa belicoso, habituado à guerra, furioso. Por causa do comportamento, nosso lagartinho ganhou este nome, mas é inofensivo, não possui veneno.

Como escreveu Eurico Santos: esperto e sabidório, vive nas árvores que pendem para os cursos d’água e lagoas e aí se queda imóvel e dissimulado. Caça em botes certeiros e de incrível rapidez. Se alguém aproxima-se, deixa-se cair n’água e desaparece.

Suas virtudes de caçador, paciência na tocaia, certeza de pontaria, esperteza de fuga, granjearam admiração de todos observadores. Assim, devia possuir a proteção dos gênios benfazejos. Naturalmente, quem lhe comesse  a carne participaria das virtudes que ela deveria encerrar (!). Por esta razão, índios usavam para filtros amorosos (ainda hoje, lagartixas são usadas por caboclas que suspeitam da fidelidade de seu amante). Um dedo do bichinho na ponta da flexa, jamais erraria o alvo.


Transformou-se em constelação para alguns índios da Amazônia, pois o sáurio foi aos céus a convite de Tupan, para uma festa. Ao fim, como gostou do lugar, ficou estático, quieto e dissimulado, de forma que passou despercebido e está lá até hoje, com o nome de Tamacuaré, na Cassiopéia.


Stradelli diz que os índios abrem nas suas inscrições rupestres um largo traço, mais grosso numa extremidade, cortado por duas linhas transversas. Tal hieróglifo assinala o mirífico lagartinho. Na proa de embarcações amazônicas tal figura evoca a virtude do tamacuaré em voltar à tona, caso afunde.


Endêmico da Floresta Atlântica, passou a ser conhecido como camaleão por mudar a cor tal qual o original africano.

Será que o texto aqui transcrito refere-se a outra espécie?

Que nos corrijam os biólogos e poetas.

Leiosauridae
Camaleão (Enyalius iheringii)
Fontes: Eurico Santos, Zoologia Brasílica, 1981. Sazima & Haddad, 1992.
Photo e texto: Renato Rizzaro

2 comentários:

Atelie Da Lagartixa disse...

já ouvi muitas histórias, mas essa me deixou impressionada!!!

Biodiversidade Catarinense disse...

Hmm.. agora entendi o seu comentário lá no meu blog!
Com certeza se trata de outra espécie, pois o Enyalius iheringii é endêmico da mata atlântica.
Mas existem outras tantas espécies de Enyalius que ocorrem na amazônia.

Abraço.
Luís