19 fevereiro 2010

Catástrofe em São Leonardo


Repare na parte superior da escarpa, os deslizamentos começaram lá em cima

Algumas controvérsias envolvem os deslizame
ntos e as consequencias desatrosas no canyon do Rio das Furnas, em São Leonardo, ocorridos no dia 9 de janeiro de 2010. Resolvi consultar amigos e especialistas para tentar esclarecer o fato, principalmente no que diz respeito a vegetação, apontada como uma das vilãs da catástrofe.



Rancho de cebolas próximo a casa do vizinho, Moli, escapou por pouco

Geólogos que estiveram no local estimaram uma precipitação entre 250 e 300mm em 3h 40m, a partir das 17:00h do dia 9, sábado. Uma quantidade de água absurda, formada por nuvens que vieram do leste e noroeste e rodaram acima da Serra da Boa Vista, provocando enxurradas fortes principalmente em Taquaras (Rancho Queimado) e São Leonardo.

Local onde o Rio das Furnas foi represado ocasionando a bomba dágua

Nessa localidade houve deslizamentos nas encostas que represaram o Rio das Furnas na altura do nosso vizinho, há 800 metros a jusante da Reserva Rio das Furnas. Quando o represamento estourou, provocou uma bomba d'água que arrasou as margens do rio, inundou terrenos mais baixos, levou pontes, animais, construções ribeirinhas e foi arrastando tudo até onde pode se espraiar.

No calor das discussões, o povo acabou culpando as árvores pelo estrago, pois a quantidade e dimensão das madeiras arrastadas eram enormes. Alguns formadores de opinião declaravam aos brados que a mata ciliar deveria ser toda eliminada, em todos os rios! Outros disseram que o barranco desmoronou onde “nunca havia sido mexido”, etc.

Esse imenso buraco era o lugar da ponte que liga a Reserva com a estrada de acesso. Até hoje (16.2.2010) estamos isolados

Fui convidado a dar uma entrevista para a TV Bela Aliança em Rio do Sul, dois dias depois da catástrofe. Naquela ocasião, sem conhecimento e um pouco assustado com o que vivenciei na Reserva, acabei por atropelar alguns conceitos que poderia ter desenvolvido caso tivesse lido o livro “Desastre no Vale do Itajaí” e tivesse tempo para pesquisar sobre o assunto. Recordo que uma das afirmações que fiz e mantenho é “fomos salvos pelas árvores”, pois atrás de nossa casa existe uma floresta em estado avançado de regeneração, por onde escorre uma cachoeira.

Um trecho da estrada de acesso. Mais fotos em http://www.flickr.com/photos/renato-rizzaro/

Posteriormente subimos para analisar a cabeceira dessa cabeceira e o que vimos foi suficiente para reforçar minha afirmação.
Apesar da propriedade acima da nossa ter sido utilizada durante muitos anos como pastagem, onde a queimada era praticada a cada dois anos, conseguimos reverter a situação para um início de regeneração após a intervenção do IBAMA e da minha própria, pois na última das queimadas tive que subir a escarpa e empunhando uma arvoreta, fui batendo contra o fogo na macega até conseguir proteger uma porção de mata ciliar e de encosta que protegia justamente a cabeceira da tal cachoeira.


---> Bom, agora é hora de ouvir quem conhece do assunto. Enviei um email para nosso amigo, Laurenz Pinder, que conheci ano passado durante o VI Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Com a palavra, Laurenz:

O fato de ter árvores é um indicativo de um solo mais saudável, mais permeável ou seja menos compacto e com isto maior é a probabilidade de acumular água. Em comparação com um pasto ou vegetação mais rala, o solo tende a se encharcar profundamente mais rapidamente, pois ao invés de escorrer em enxurrada a água vai se infiltrando no solo até o ponto de encontra-se com a rocha em decomposição e aí ocorre o deslizamento.

Em uma área de pasto, o peso da biomassa é menor e pela compactação do solo a água vai escorrer mais do que infiltrar, mas não significa que também não ocorra deslizamento neste caso. Basta chover o suficiente para saturar o solo. Aqui tem o agravante ainda de ocorrerem erosões e voçorocas, que ambientalmente acho pior do que deslizamentos porque nos deslizamentos existe um processo de cicatrização e no caso da voçoroca a ferida fica aberta e somente cresce.

Não sei ao certo porque os cortes nas encostas aumentam o risco de deslizamento mas o meu palpite é que uma faixa grande de solo fica sem amarração das raízes e também é uma grande superfície que talvez facilite a penetração da água no solo. Pode ver que muitos deslizamentos começam onde existem cortes, mas não somente. No Morato* eu passei por trechos de solo no meio da mata onde o solo começou a escorregar mas parou, restando como se fosse uma rachadura no chão.

O fato é que a retirada da vegetação nativa seja por qual meio for, na minha opinião, somente agrava os problemas ambientais de um modo especifico para a conservação dos solos, mas também no sentido mais amplo como redução da biodiversidade, captura de carbono da atmosfera, equilíbrio micro e macroclimático, conservação de água e fertillidade para citar os que me vêem a mente no momento.

---> Vamos ao livro “Desastre de 2008 no Vale do Itajaí”, do qual recortei alguns trechos**:

Os desastres:
> Não são fenômenos naturais: são fenômenos socioambientais que convertem a fragilidade natural em vulnerabilidade social, e não choques de origem externa (exógenos) que erodem os ganhos do desenvolvimento.


> Constituem um reflexo da organização da sociedade: eventos naturais se convertem em impactos sociais crescentes pela ocupação do espaço e pela utilização dos recursos naturais, ampliadas pela incapacidade de ação da sociedade.

> São construídos pela vulnerabilidade social da população: quanto menos a população percebe o risco de ocorrência de desastres, tanto mais vulnerável ela se torna.

> São vividos socialmente de forma diferenciada: os desastres em geral tendem a piorar as condições de vida da população mais pobre, enquanto favorecem os ganhos dos setores dominantes.

> Constituem uma oportunidade de aprendizado social: porque constituem uma interrupção no cotidiano de funcionamento das comunidades, o que permite repensar as relações entre a sociedade e ela mesma e com a natureza.

Como a vegetação influi no movimento da água?
As florestas primárias contêm árvores com altura entre 30 e 35m, com copas amplas, cobertas por milhares de epífitas (bromélias, orquídeas, samambaias, cactáceas) sobre suas amplas ramificações. Sob as grandes árvores há um sub-bosque (arvorejas, arbustos, caetés) formando denso emaranhado, limitador da velocidade de escoamento da água das chuvas. As raízes das árvores e arvoretas são muito diversificadas na forma, na espessura e na profundidade em que penetram no solo e nas fissuras da rocha, exercendo importante função de agregação mecânica. Quando o solo é raso, o sistema radicular funciona como uma âncora, firmando-o nas encostas. Na superfície do solo há camadas de serapilheira formadas principalmente por troncos, ramos e folhas, as quais interceptam a água da chuva, impedindo o impacto das gotas diretamente no solo, facilitando sua infiltração e retardando seu movimento.

Florestas submetidas à exploração seletiva de madeira
A exploração de madeira altera a estrutura da floresta, inclusive do seu conjunto de raízes. Com o corte do tronco, a árvore em geral morre e suas raízes extensas, profundas e de grande diâmetro, lentamente começam a apodrecer e, em seus locais, ficam espaços abertos, por onde a água infiltra, diminuindo a resistência do solo das encostas.

Áreas que sofreram corte raso
Nesse caso, o conjunto total das
raízes é destruído com o tempo (entre cinco e 10 anos) e seu efeito de manter o solo coeso desaparece. O solo desprotegido se desestrutura e fica compactado. A água que escoava sub-superficialmente (até 60 cm de profundidade), agora tende a escoar pela superfície do solo ou infiltrar-se intersticialmente (pelas fendas) até as regiões mais profundas. Assim, aos poucos as nascentes são desabastecidas, agravando o efeito das estiagens e, durante chuvas intensas, provocando processos erosivos ou escorregamentos de encostas e deposição daqueles sedimentos nas planícies e nos cursos d’água.

Florestas secundárias
Quando a área é abandonada e a floresta novamente se instala, formam-se os conhecidos capoeirões ou florestas secu
ndárias. Nesse caso, são necessárias décadas para que todas as funções ecológicas de florestas não exploradas sejam exercidas. Somente com o tempo, o solo se recupera, a serapilheira rica em vida se recompõe, as interações entre plantas, animais e microrganismos se intensificam, levando, enfim, à proteção de nascentes e córregos. Nas florestas jovens o sistema radicular ainda está em formação, é pouco emaranhado e pouco profundo. O solo ainda está em recuperação, tem serapilheira pouco espessa e sua função de retenção de água e favorecimento de infiltração ainda não é plena. A fragilidade das florestas secundárias frente aos eventos climáticos extremos aumenta na presença de estradas, de pastejo pelo gado e de roçadas do sub-bosque.

Plantios de Pinus e Eucalyptus em
encostas muito inclinadas
Nesses plantios a água apresenta dinâmica diferente daquela no interior da floresta conservada. Como as plantas têm praticamente a mesma altura nos povoamentos, as copas provocam amortecimento da água da chuva, mas como não há outras camadas de vegetação abaixo delas e a serapilheira pode ser fina, as gotas de chuva se precipitam sobre o solo com velocidade, provocando sua compactação e favorecendo o escoamento da água pela superfície. A água que escoa superficialmente pelas encostas, durante os eventos de grande precipitação, se concentra nas vertentes, aumentando a erosão e facilitando os movimentos de massa. Esse fenômeno, observado no vale do Itajaí, foi comprovado em outras regiões de Mata Atlântica.

Uso de herbicidas, fungicidas e bactericidas
O uso de herbicidas, aliado aos fungicidas e bactericidas, provoca morte da vida do solo, dificultando o desenvolvimento do sistema radicular das plantas e a conseqüente fixação do solo nas encostas. A dinâmica da água dentro dos plantios de banana também é diferente da que ocorre na floresta. Uma vez ultrapassadas as folhas no topo da planta, a água não encontra mais obstáculos, caindo em grandes gotas sobre os restos de cultura e o solo. Em chuvas intensas a água tem dificuldade para se infiltrar e desce as encostas, causando erosão. A umidade excessiva do solo, oriunda dos fragmentos da planta depositados no solo após a colheita da banana, aumenta a fragilidade do sistema.

Pastagens
Em todo o vale do Itajaí, nas encostas dos morros que formam vales estreitos, é comum encontrar pastagens. Devido ao pisoteio do gado e ao intenso pastejo, as pastagens têm solo adensado, o que dificulta o desenvolvimento das ervas e propicia o acelerado escoamento superficial, provocando erosão. Essas águas transportam muito solo para as várzeas e para dentro dos rios, contribuindo para o seu rápido assoreamento e transbordamento, bem como deixando desabastecidos os solos e os aquíferos. Nas pastagens constatam-se frequentes afloramentos de rochas (matacões) de grandes tamanhos, resultados da erosão laminar (superficial) em áreas de antigos movimentos de massa.

Áreas agrícolas nas encostas
Culturas anuais de subsistência são frequentes e importantes para os agricultores. As plantas anuais em geral possuem sistema radicular de pequeno tamanho, oferecendo pouca fixação no solo. Como os ciclos são de poucos meses, novo revolvimento do solo é necessário, favorecendo a erosão. As plantas em geral são de tamanho pequeno e por isso protegem pouco o solo. Portanto, em períodos de chuva intensa, erosão e movimentações de massa são frequentes, e a necessidade de fertilizantes e agrotóxicos tende a aumentar ano após ano, devido aos estresses que tais culturas estão submetidas. Apesar disso, as técnicas de conservação do solo são aplicadas em poucas propriedades.

Agricultura e pastagens em várzeas
As planícies em geral são utilizadas para o plantio de arroz irrigado ou para pastagens, mas outros cultivos também são efetuados. Nelas praticamente não existem remanescentes florestais. Para o cultivo do arroz e para a pecuária foram e são realizadas redes de drenagem, dragagens e retificação dos cursos d’água, afetando a dinâmica natural da água na planície e nos rios. Pela sua localização, essas culturas são vulneráveis aos alagamentos, ao arrastamento das plantas pela água e ao seu soterramento pelos sedimentos trazidos por ribeirões e rios. A Área de Preservação Permanente (APP) não é respeitada em grande parte das propriedades. As prefeituras, assim como órgãos estaduais, promovem rotineiras dragagens dos rios, a pedido dos produtores, não levando em conta os impactos ambientais dessa ação. Com as margens desprotegidas pela falta de floresta, o rio, nas inundações, potencializa seus processos dinâmicos, erodindo margens ou depositando sedimentos recentes em outros locais, causando não só impactos ambientais como também perdas econômicas graves.

Enfim, as diferentes atividades das comunidades humanas sobre a vegetação, o solo e os rios, provocam alterações que têm efeitos danosos durante os eventos de intensas precipitações e também durante as estiagens. O agricultor sabe que, ao plantar em áreas impróprias, gera recursos, mas também se expõe aos desastres, com perdas pessoais e econômicas graves.

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(*) Em 2006 houve forte chuva no Salto Morato, com consequências desastrosas. Esta Reserva está sob os cuidados da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, na qual Laurenz Pinder é Coordenador do Planejamento estratégico e operacional do Programa de Áreas Protegidas. Vivenciou um dos maiores desatres ocorridos na área até hoje.
Laurenz Pinder é PhD em Manejo e Conservação de Vida Silvestre pela Universidade da Florida (EUA). Pesquisador associado do Zoológico Nacional de Washington atuou nos primórdios do Projeto Mico Leão Dourado. Atuou na The Nature Conservancy. No Cerrado entre outras atividades de suporte à conservação dos Parques Nacionais Grande Sertão Veredas e Emas, desenvolveu e implementou o programa de Agricultura Sustentável, que focou esforços junto a produtores de grãos e pecuaristas. Na Fundação O Boticário de Proteção à Natureza atuou no incentivo à conservação em terras privadas e na consolidação de áreas naturais protegidas.

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(**) Parte da equipe que elaborou o livro “Desastre de 2008 no Vale do Itajaí”:
Beate Frank - Física, doutora de Engenharia de Produção. Professora aposentada do Departamento de Física e do Mestrado em Engenharia Ambiental e pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ambientais da Universidade Regional de Blumenau, com ênfase em gestão de recursos hídricos. Secretária Executiva do Comitê do Itajaí.
Juarês José Aumond - Geólogo, mestre em Geografia, doutor em Engenharia Civil. Professor do Departamento de Ciências Naturais e do Mestrado em Engenharia Ambiental da Universidade Regional de Blumenau. Atua desde a década de 70 nas áreas de mineração, economia mineral, com ênfase em geologia ambiental e recuperação de áreas degradadas.
Lauro Eduardo Bacca - Biólogo, mestre em Ecologia. Professor do Curso Superior de Tecnologia em Gestão Ambiental do SENAI–SC. Presidente da Associação dos Proprietários de Reservas Particulares do Patrimônio Natural de Santa Catarina.
Lucia Sevegnani - Bióloga, doutora em Ciências – Ecologia/USP. Professora do Departamento de Ciências Naturais, do Mestrado em Engenharia Ambiental e do Mestrado em Educação em Ciências Naturais e Matemática da Universidade Regional de Blumenau, com ênfase em ecologia de florestas.
Marcos Antônio Mattedi - Sociólogo, mestre em Sociologia Política, doutor em Ciências Sociais/UNICAMP, pós-doutorado no Centre de Sociologie de L´inovation/ESMP. Professor do Curso de Ciências Sociais e do Mestrado em Desenvolvimento da Universidade Regional de Blumenau, atuando na área de formação e dissolução de redes sociotécnicas regionais.
Mario Tachini - Graduado em Engenharia Sanitária e Ambiental, mestre em Engenharia Ambiental, doutorando em Engenharia Ambiental/UFSC. Professor do Departamento de Engenharia Civil e pesquisador do Instituto de Pesquisas Ambientais da Universidade Regional de Blumenau, com ênfase em engenharia sanitária e ambiental, e recursos hídricos.
Noemia Bohn - Advogada, mestre em Instituições Jurídico Políticas, doutora em Direito das Relações Sociais – Direitos Difusos e Coletivos/PUC-SP, pós-doutorado na Unité Mixte de Recherche Territoires, Environnement, Teledetection e Informations Spatiales (UMR TETIS). Professora do Departamento de Direito e do Mestrado em Engenharia Ambiental e pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ambientais da Universidade Regional de Blumenau.

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